abandono

…sabia que a confusão que era sua vida. sua casa. era somente sua. eternamente desorganizada. colecionadora de coisas velhas que nunca seriam usadas. era a sua forma de eternizar o que já se passara. tinha uma louca sensação de que precisaria um dia daquilo. um velho recorte de jornal falando de levi-strauss, ou uma receita antiga de como fazer sabonetes glicerinados em forma de bola futebol. ou uma receita de sex on the beach delicioso drink que tomou no primeiro encontro com um carinha que não viu nunca mais…. enfim precisaria de um incendio para desapegar de sua coleção de apegos inuteis e salvadores… estava perdida, pensava na frase de clarice lispector que dizia mais ou menos, se não lhe falhasse a memória( algo que costumava lhe falhar sempre), que ´’quem não é perdido não conhece a liberdade’ e pensava que clarice tinha razão pois a liberdade traz essa perda, perdição, algo que sempre fica pra trás… ela era assim gostava de ´pensar coisas estranhas e se achava a mais estranhas das  pessoas… isso por que se irritava a toa não conseguia ir a missa aos domingos e nunca mais nunca mesmo terminava de ler os seus livros. fez até terapia por causa disso teve alta e mesmo assim continua sem terminar os livros que começa porque, descobriu isso na terapia, não se interessa o bastante pelos finais… e se terminasse os livros teria que abandona-los e possuia verdadeiro horror a qualquer forma de abandono…

por-do-sol e chet baker

…ela adorava quando ele tocava aquela musica de chet baker para ela. foi o por-do-sol mais bonito da sua vida . nunca mais um por-do-sol foi silencioso pois vinha acompanhado daquelas notas suaves na sua memória. these foolish things…inesquecível
ela aprendeu a ouvir chet com ele. seu músico preferido de jazz. o unico. traduzido por ele.
embriagada por aquelas poucas horas que possuíam juntos, todos os meses. o resto do mes. ele saia em turnê . ela o esperava com a mesa posta. um vaso vazio. que ele completava com a rosa champanhe que trazia junto com o vinho… eles não tiveram Paris mas foram ao corcovado…a porto alegre…dançaram tango em buenos aires…
ela sabia que um dia ele não viria mas mesmo assim cada segundo era uma vida quando estavam juntos…sabia que não teriam filhos juntos…mas que o amor era o filho deles…sabia que ele poderia encontrar um outro amor…mas que o amor deles era único…enquanto ele não chegava ela regava o jardim…arrumava a casa…ouvia as fitas com as gravações dele…ia dar suas aulas no jardim de infância todas as manhãs… e ouvia o por-do-sol num instante em que o tempo durava entre ele chegar e novamente ir…

Próximo post

“o melhor do silencio é ouvir os barulhos…aquele barulho da colher batendo na xicara enquanto mexo meu café. O som da mosca. O silêncio onde encontro meus vazios. onde posso fugir dos barulhos do mundo. posso olhar o tempo parado. amo o tempo que para. um instante qualquer onde tudo que existe tem um fim. Onde tudo faz um sentido fudido e  tudo parece se encaixar…onde sua boca encontra a minha e a hora pára no relogio em cima da geladeira…”

Pixies ♫ Where İs My Mind by JîrBevîyan